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Tribalismo: Dimensões e atributos — Parte 1

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Lembro-me de uma das minhas aulas de Lógica Jurídica em que aprendemos como criar “Conceitos” — A ideia era muito simples, encontra-se o gênero do que ser quer conceituar e a característica que distingue a coisa do resto do gênero.

O que me interessa, na verdade, é um exemplo muito usado para demonstrar esse tipo de conceito:

O Homem é um animal racional.

Depois de ler o livro Great Boss, Dead Boss, de Ray Immelman, que trata de tribalismo, passei a ter minhas dúvidas se o trecho “racional” desse conceito estaria correto, pois o tribalismo faz com que tomemos decisões e interpretemos fatos e comunicações de forma muito mais emocional que racional.

Conforme falei no post anterior sobre o livro, o tribalismo, além de ser a forma mais antiga de organização humana, está na nossa natureza se estruturar assim. Como diz o velho ditado: “Se não se pode vencê-lo, junte-se a ele” — então se queremos liderar, gerenciar e inspirar pessoas de forma eficiente, devemos explorar a força tribal em benefício da organização.

Gerenciando Tribos:

Como em uma família, ao fazer parte de uma tribo é como se passássemos a ganhar a confiança da tribo — uma tribo é caracterizada por laços muito fortes de confiança entre seus membros. Vamos ver alguns aspectos principais.

Teorias de motivação

Immelman fala das teorias de motivação de Maslow (Pirâmide de necessidades), Herzberg (Teoria dos dois fatores) e McClelland (Teoria da Necessidade) como teorias de conteúdo e de Vroom (Teoria das expectativas), Adams (Teoria da Equidade) e Teoria do Reenforço. Todas as teorias de motivação focavam no indivíduo. Segundo o tribalismo, seria o grupo que determinaria o comportamento e a motivação do indivíduo.

Framework

O livro propõe um framework com cinco dimensões, vinte e três atributos e mais algumas coisinhas. Mas, tentando ser mais Lean, vou quebrar em blocos menores. Nesse post vamos dar uma espiada nas cinco dimensões e nos cinco primeiros atributos das tribos, ok?

Dimensões

As dimensões seriam os pilares do comportamento tribal, vejamos as cinco:

  1. Os indivíduos são social e emocionalmente definidos por sua filiação tribal
    “Ao fazer parte de uma tribo, parece que ganhamos um senso de si, uma maneira de nos definir através das afiliações que mantemos”

    O valor do indivíduo é entendido meramente no contexto tribal, ou seja, o valor individual aumenta se os integrantes da tribo reconhecem as contribuições e atribuem maior valor ao indivíduo, pouco importando o reconhecimento de alguém de fora da tribo. A premissa aqui é que tudo é tribal.

  2. Os indivíduos agem para fortalecer sua própria segurança se a mesma estiver ameaçada — segurança individual
    A ameaça aqui não precisa ser real, o que interessa é a segurança percebida.

  3. Os indivíduos agem para fortalecer seu valor próprio quando a segurança não estiver ameaçada — valor individual
    O indivíduo passa a trabalhar para conquistar dos membros da tribo mais reconhecimento sobre suas contribuições.

  4. As tribos agem para assegurar a auto-preservação se sua segurança estiver ameaçada — segurança tribal
    Aqui também vale a segurança percebida, não a real. Se sua empresa estiver à beira da falência, mas ninguém souber, se interessar ou então se achar que a empresa é sólida como uma rocha, a tribo não se sente ameaçada. Nesse caso, mesma à beira da falência a tribo não agirá com o devido senso de urgência para se salvar.

  5. As tribos agem para fortalecer seu valor próprio quando a segurança não estiver ameaçada — valor tribal
    Um exemplo dado no livro é a tribo de manutenção da TeraLogix (lembre-se que o livro traz todas essas ideias em uma história), que não estava sob nenhuma ameaça e tem uma oportunidade de mostrar seu valor. O pessoal de manutenção se une e faz um baita trabalho, inclusive com sacrifícios pessoais para conseguir atingir o objetivo. Na visão tribal, a razão desse comportamento seria fortalecer o valor da tribo.

Atributos Tribais

Os atributos tribais são características encontradas nas tribos ou que podem ser utilizadas para construir uma nova tribo ou ainda fortalecer uma já existente.

  1. Uma tribo forte deve ter um inimigo comum
    Um exemplo usado no livro é o de um cartaz escrito pelos meninos da vizinhança que tinham ido brincar na casa do personagem Greg. O cartaz dizia: “Meninas fora”.
    Instintivamente os meninos haviam escolhido as meninas como suas inimigas.
    Exemplos não faltam: Os Palestinos têm a Israel e aos EUA; os palmeirenses têm os corinthianos; a Record, a Globo; os policiais, os bandidos; o Agile, o Tradicional.

  2. Uma tribo forte deve ter símbolos claramente definidos
    Usar símbolos, como camisas de times de futebol, seria uma forma de demonstrar afiliação a uma determinada tribo.
    Um outro exemplo seriam as Torres Gêmeas, o Pentágono, a Casa Branca como símbolos da tribo americana, e por isso, alvo dos ataques de 11 de setembro.

    Uma frase do livro: “Fico irado quando vejo alguém em algum país obscuro do terceiro mundo queimando a bandeira americana (…) a próspera e capitalista nação americana é o inimigo comum de todos esses queimadores de bandeiras (…) que demonstram sua hostilidade queimando um dos símbolos da tribo.”

  3. Uma tribo forte oferece identidade a todas as suas subtribos
    O autor cita vários casos de empresas que compraram outras, mas que continuaram co-existindo como empresas separadas. Toda a ideia de se obter sinergia com as aquisições acaba perdida se não se criar uma super-tribo para abrigar todas as subtribos. Mas atenção, a empresa que comprou não pode ser a super tribo, pois não deve haver uma tribo ganhadora e uma perdedora, portanto é necessário criar uma nova tribo. A criação de uma nova super-tribo permitiria às pessoas emocionalmente e mentalmente abandonar sua tribo antiga e confiável e afiliar-se à nova e bem sucedida tribo.

  4. Uma tribo forte possui uma causa maior para sua existência continuada
    A causa maior é algo capaz de fazer as pessoas se sentirem empolgadas em contribuir para atingí-la. Um exemplo parcial (faltou a parte da continuidade) é dado no livro é o da NASA durante a época da conquista da Lua. Segundo relatos de quem trabalhou lá nessa época, teria sido uma fase extremamente empolgante: as pessoas nem queriam ir para casa para conseguir contribuir mais com o objetivo de colocar o homem na Lua. O problema foi que quando o objetivo foi cumprido, por muito tempo a NASA teria ficado desnorteada.
    Outro exemplo seriam os bombeiros, que têm como causa maior o salvamento de vidas.

  5. Uma tribo forte deve ter um rito de passagem
    Um evento desafiador ajuda a formar uma ligação, um senso de respeito e orgulho mútuos.
    Exemplo do vestibular para a tribo dos universitários. Do vestibular, graduação e OAB para os advogados.

Esses foram apenas 5 dos 23 atributos de uma tribo. Nos próximos posts vamos ver os demais atributos, maneiras de prever o comportamento das tribos de acordo com sua percepção de segurança e valor etc.


De quais tribos você faz parte? Você vê algum desses atributos nas tribos das quais você faz parte?

About the author: Leonardo Campos

Leonardo Campos trabalha na área de TI desde 2000, atuou boa parte deste tempo como desenvolvedor Java, mas também desenvolveu profissionalmente com Ruby, .NET, VB, PHP e ASP. Desde do começo de 2009 vem atuando com Agile e hoje trabalha na ThoughtWorks Brasil. É estudioso de processos e entusiasta de Lean e Agile, sendo um dos organizadores do Lean Coffee São Paulo e editor da InfoQ. Leonardo é advogado por formação (Universidade Presbiteriana Mackenzie).
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@leonardocampos

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