menu

Caos?

Holacracia: caos na Zappos?

Por

As pessoas com as quais convivo sabem que gosto da ideia da Holacracia, então elas costumam me enviar links que relatam, geralmente, supostos problemas em algum dos conceitos ou princípios da Holacracia, querendo saber minha opinião a respeito.

Sempre que me deparo com textos e opiniões calorosas a respeito de qualquer movimento, a exemplo do Agile e do Lean, ou de práticas, métodos e frameworks, como o Scrum, Kanban, XP, Cristal ou FDD, tendo a acreditar que estes métodos ou práticas não foram realmente aplicados e vividos, mas apenas uma versão bem superficial da ideia como um todo foi experimentada.

Bom, decidi comentar o último texto que recebi sobre um suposto caos que a Holacracia estaria provocando na Zappos: Astonishingly, Tony Hsieh’s Holacracy experiment is causing chaos at Zappos. Vamos lá:

Um dos primeiros problemas reportados foi a suposta falta de clareza sobre os papéis e responsabilidades:

“ninguém quer tomar decisão nenhuma porque ninguém sabe se tem a autoridade” (tradução livre)

Essa parte me pareceu bastante estranha, pois um dos objetivos da Holacracia é trazer clareza sobre que papel tem determinada autoridade. Cabe à pessoa que energiza um papel, ou seja, que atua naquele papel naquele momento, levantar essa tensão em uma reunião de Governança quando percebe esta falta de clareza. Se algo for urgente, também é possível a qualquer pessoa tomar uma decisão autocrática se esta entender estar agindo em prol do propósito do seu papel e então, mais tarde, levar a questão para a Governança.

Em um outro trecho do texto que fala sobre remuneração, comenta-se que ainda é preciso convencer o Tony Hsieh, o CEO da Zappos.

“você tem que convencer o Tony Hsieh.” (tradução livre)

Pelo que entendi do texto, o Tony é o Lead Link [Link principal] do Círculo de Remuneração. Como as decisões, na Holacracia, usam um formato chamado de decisão integrativa, não cabe a ninguém impor suas decisões, nem mesmo ao Lead Link. Se ele está conseguindo impor algo, o problema é que a Holacracia não está sendo seguida. Existe um outro aspecto relacionado ao Lead Link que diz respeito a todas as suas responsabilidades poderem ser removidas pelo processo de governança.

“A Holacracia não elimina todos os chefes […] exceto o Tony Hsieh. Como consequência, a nova política de gestão radical do Hsieh não tornou a Zappos uma democracia, tornou-a sim uma ditadura.” (tradução livre)

O único poder que a Holacracia reserva ao CEO é o de remover a própria Holacracia, de resto, toda autoridade do sistema é distribuída ao processo, não às pessoas. O processo, por sua vez, utiliza as pessoas como sensores das tensões e como guias para o cumprimento do propósito organizacional. Ou seja, não é uma proposta da Holacracia implantar uma democracia, o poder não é do Povo, para o Povo e pelo Povo. Entendo que se o CEO está mandando e alguém obedecendo, quer dizer que não houve a implantação de uma Holacracia de fato.

“O Link principal não pode mais mandar ninguém embora, assim, alguém na Zappos teve a terrível ideia de que as pessoas sem papéis deveriam estar ‘na praia’.” (tradução livre)

“[…] a Cultura da Zappos, [diz Rachel Murch, líder na Zappos] sempre foi a de ‘contrate devagar, demita rápido.’ As pessoas que eram identificadas como pouco adaptadas à cultura eram removidas rapidamente. Com (…) a criação da “praia” como uma espécie de Sibéria, a cultura teve uma guinada brutal. Algumas pessoas que foram mandadas para a praia se viram isoladas como se tivessem algo contagioso.”

Pela Holacriacia, cabe ao Lead Link, salvo se foi estabelecido o contrário, a autoridade de alocar as pessoas para energizar os papéis do círculo. A Holacracia não prescreve como contratações e demissões devem ser feitas, mas suporta as decisões criadas em Governança.

Se isso não faz sentido para você, pense em como o Scrum é incompleto em não dizer, por exemplo, como estimar; como representar os itens de backlog; como gerenciar riscos; nem um bom tanto de outras coisas e mesmo assim existem algumas práticas comuns que costumamos adotar para cada uma dessas necessidades, como planning poker, histórias de usuários, dentre outras que estão fora do Scrum.

O mesmo vale para a Holacracia, que, apesar de não prever uma infinidade de coisas, estipula algo análogo a um sistema operacional sobre o qual é possível copiar práticas de outros contextos e empresas (o que poderíamos chamar de “add on“) ou criar soluções próprias utilizando o processo de Governança.

“O Williams me contou a história de uma mulher chamada Rosemary, que havia sido removida de seu papel logo após ter completado o treinamento para novos contratados. O Lead Link entendeu que ela não estava se conectando emocionalmente com os clientes, mesmo ela tendo 13 anos de experiência em call centers. Ao que parece, Williams disse, ela era simplesmente educada demais. Ela dizia coisas como ‘Sim, senhora’ e ‘Sim, senhor’, pois foi como o treinamento disse para tratar os clientes, mas essas maneiras formais e tradicionais eram estrangeiras para o Lead Link dela, que exigia uma personalidade mais enérgica” (tradução livre)

Sim, como falei há pouco, é do papel do Lead Link a autoridade para escolher a pessoa que energizará um determinado papel (com exceção dos papéis eletivos que são escolhidos através da prática conhecida como Eleições Integrativas). Pareceu-me, entretanto, uma análise bastante superficial atribuir o desligamento da Rosemary de seu papel, apenas por falar “Sim, senhor”. De qualquer forma, seja na Holacracia, seja em uma empresa hierárquica tradicional, decisões idiotas ainda podem ser tomadas a qualquer momento por quem detenha a autoridade para tal. A diferença é que na Holacracia esse poder pode ser tirado de qualquer papel que o detenha, mesmo sendo o de Lead Link, assim como uma pessoa energizando mal um papel pode ser removido dele sem ter que ser demitida.

Bom, pelo menos nesse texto não vi nenhum ponto que me faça acreditar que a Holacracia não funcione, apenas que é uma transição difícil e dolorosa como qualquer outra que exija uma mudança de mentalidade. Você que já vivenciou em sua organização uma transformação para o Agile sabe do que estou falando, não?

About the author: Leonardo Campos

Leonardo Campos trabalha na área de TI desde 2000, atuou boa parte deste tempo como desenvolvedor Java, mas também desenvolveu profissionalmente com Ruby, .NET, VB, PHP e ASP. Desde do começo de 2009 vem atuando com Agile e hoje trabalha na ThoughtWorks Brasil. É estudioso de processos e entusiasta de Lean e Agile, sendo um dos organizadores do Lean Coffee São Paulo e editor da InfoQ. Leonardo é advogado por formação (Universidade Presbiteriana Mackenzie).
LinkedIn
@leonardocampos

4 comments

  1. Davi Gabriel da Silva

    Post bacana. Como a Holacracia é uma inovação, existe muito misticismo em torno dos conceitos. Um amigo guru do movimento ágil me disse que o mesmo aconteceu com o Scrum no início. Estou curioso pra ver qual vai ser a evolução do Framework. Abraço, Leonardo 🙂

    Posted on janeiro 19, 2016
    • Leonardo Campos

      Valeu, Davi. Os conceitos da Holacracia são muito baseados em autogestão e uma organização que tem o propósito como bússola para suas ações.
      Acontece que as pessoas vivem em paradigmas diferentes e têm muita dificuldade em entender essa forma de organizar uma empresa.
      No livro “Reinventing organizations”, que recomendo bastate e também fala de Holacracia, o autor conta que mesmo algumas empresas que obtiveram enorme sucesso com auto-gestão (A AES chegou a ter 40k funcionários em um modelo de autogestão) acabaram revertendo para práticas tradicionais, pois seu “board” não acreditava naqueles princípios e práticas, só tolerava pq estava trazendo grana. No momento de crise, que, diga-se, empresas tradicionais ou não estão sujeitas a passar, voltaram às formas conhecidas de gerir.

      Posted on janeiro 19, 2016
  2. Pingback: Os top 10 artigos no Kudoos em 2015 | Kudoos

  3. Pingback: Holacracia: Entrevista com Davi Gabriel | Kudoos

Leave your reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Go to top