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Na prática a teoria é outra – Dissonância cognitiva

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Não sei se já aconteceu com você, mas já precisou pegar emprestado o carro de um amigo para ir buscar mais cerveja para um churrasco? E na pressa de sair e voltar rápido, porque todos estão esperando, você engatou a marcha ré, deu aquela olhada para trás, acelerou, mas o carro foi para frente!? Se já te aconteceu isso, parabéns! Você experimentou um exemplo de dissonância cognitiva.

De acordo com a teoria da dissonância cognitiva de Festinger (1957), um indivíduo passa por um conflito no seu processo de tomada de decisão e dissonância depois quando pelo menos dois elementos cognitivos não são coerentes. (wikipedia).

Em nossa indústria vital experimentamos dissonâncias em várias situações, como quando executamos os testes da nossa aplicação e o novo código quebra alguma coisa; quando passamos o crachá na catraca e não somos liberados; e como quando apertamos o botão da máquina de café e não há copos. Experimentamos dissonâncias cognitivas também em situações mais complexas, que não sabemos ao certo explicar, mas que lá no fundo sabemos que alguma coisa está errada. Muitas destas dissonâncias são vivenciadas em atividades de gestão, seja quando gerenciamos nossas próprias atividades e/ou comportamentos, seja quando somos gerenciados por alguém.

Há também aquelas situações em que afirmamos ser diferentes do que realmente somos, quando dizemos ser inovadores; ágeis; out of the box; cool, mas na prática fazemos mais do mesmo, alimentando os velhos paradigmas de sempre. Em organizações que se dizem descoladas e que assumem o estilo pontocom, por exemplo, encontramos salas de vídeo game, mas, em contrapartida, não conseguimos tempo para jogar. Temos áreas de descanso e ambientes descontraídos, mas não conseguimos aproveitá-los, pois estamos sempre preocupados com os prazos. Queremos mudar o mundo, mas quando alguém sugere implantar uma ideia ousada, não há tempo, porque “temos muito o que entregar ainda“.

De quem é a culpa?

Tudo isso não é culpa dos gerentes, hein! Bem… é culpa deles também… mas a culpa maior está na mentalidade predominante, presente na grande maioria de nós e da qual somos todos vítimas de alguma forma. Nossos pais e avós beberam dessa fonte, nossos chefes e presidentes de muitas empresas atuais viveram esses ensinamentos. Teorias, práticas e comportamentos nascidos das primeiras formas de organização do trabalho, há uns 150 anos, forjados na revolução industrial e sobre os quais a revolução se fez. E tais fatores, vindos de pai para filho, estão hoje em nosso DNA, ajudando a criar a dissonância que experimentamos no dia a dia.

Sabe aqueles dilemas sobre precisão e acurácia; produtividade e criatividade; comando e controle; auto-organização; centralização e descentralização; democracia organizacional; inovação; motivação com bônus ou propósito, então… Estas questões têm todas suas vertentes positivas e negativas. Não é objetivo defender nenhuma dessas neste texto, mas apenas mostrar que sentimos nessas situações um desconforto ao buscar sair do “sempre foi assim”: Será que alguém vai pensar que estou fazendo “corpo mole” por estar trabalhando de casa? Preciso ou não falar com o chefe daquela pessoa, antes de falar diretamente com ela? Será que preciso manter meu time sempre ocupado 100% do tempo? Será que alguém vai se zangar porque estou refatorando esse código ao invés de continuar aquela história.

As mudanças que dependem somente de dinheiro já começam a acontecer por serem mais fáceis, no que se refere à questão de comidinhas e mesas de ping pong. 🙂 Mas as mudanças que requerem uma nova cultura e uma nova forma de pensar, estas ainda estamos começando a entender e desafiar.

Por que isso acontece?

Acredito que esse desconforto aconteça porque ainda vivemos um momento de inflexão em que há o confronto de grandes conceitos e filosofias, com muitas características conflitantes entre si. E o dilema se encontra no fato de que os conceitos predominantes ainda não morreram completamente e, em contrapartida, os conceitos novos ainda não se firmaram por completo.
Estamos numa zona cinzenta de transição em que vivenciamos uma grande transformação na forma de trabalho, mas nossas ferramentas, técnicas e comportamentos de gestão não estão evoluindo no mesmo ritmo.

Logo, o que nos resta é esperar e ver o que emerge dessa luta. “Dentre mortos e feridos, talvez todos sobrevivam”. 🙂 Alguns destes conceitos e filosofias vão se fundir e virar uma adaptação híbrida para determinado fim. Outros vão se sobressair para determinada natureza de trabalho. Talvez novos conceitos nasçam e outros valores sejam cunhados.

Podemos influenciar, entretanto, aquelas ideias, valores, técnicas e comportamentos que melhor convenham ao nosso contexto coletivo, tentando diminuir um pouco mais essa dissonância, que, de certa forma, nos impulsiona a mudar e [quem sabe] evoluir.

About the author: Rafael Buzon

Sou desses que quer mudar o mundo e estou procurando e experimentando muito de várias teorias e práticas. Acesse meu site em http://rafaelbuzon.com

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