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Holacracia — Governança e direção ágil

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Holocracia
O Agile, como filosofia e cultura, já mostrou seu valor para o desenvolvimento de software. O pensamento ágil parece ter conseguido entender a realidade e a natureza do trabalho criativo melhor que a maneira tradicional, sendo capaz de propor formas melhores de atuar em um mundo cada vez mais complexo, em que se deve poder aceitar mudanças e aproveitar oportunidades.
A comunidade ágil já conseguiu escalar, com razoável segurança, o Agile a todo um departamento de desenvolvimento de software, com dezenas de equipes auto-organizadas, mas ainda parece ser um problema não muito bem resolvido a adoção do pensamento ágil em toda uma organização de proporções de milhares e milhares de pessoas, especialmente quando lidamos com Governança e Direção.
Vemos exemplos de empresas que conseguiram expandir sua agilidade para o nível organizacional, mas os exemplos que conheço ou são de empresas de porte muito pequeno ou similar ao que vamos ver a seguir, com maior ou menor grau de centralização.

Holacracia

Do próprio site oficial:

Holacracia significa a governança da organização por si mesma — não pelas pessoas na organização, nem tampouco por seus proprietários, como era nos antigos sistemas de governança, mas pelo próprio livre arbítrio da organização. (Tradução livre)

A Holacracia procura levar os princípios ágeis ao nível da Governança e Direção, propondo uma metodologia completa, com uma série de práticas para atingir o objetivo de dar voz à vontade da organização.

As práticas:

  • Círculos (holos) — A organização é trabalhada como uma Holarquia de “círculos” semi-autônomos e auto-organizados.
    Holacracia — círculos

    Holacracia — círculos

    Cada círculo possui autoridade, autonomia e responsabilidade para fazer o que estiver ao seu alcance para atingir o objetivo dado pelo círculo superior. Cabe ao círculo a auto-organização, mantendo e expressando sua própria identidade (agência).

    Caso você tenha lembrado de um sistema fractal, é exatamente isso, mas com um nome bem mais interessante ;-). A palavra Holarquia vem do grego “holos” (todo), e quer dizer o governo do todo. A Holacracia traz o sentido que cada parte é o todo em si, mas ao mesmo tempo é parte de um outro todo maior. Trata-se de uma prática relacionada à estrutura da Holacracia.

  • Dupla ligação (double link) — Como dissemos, podemos pensar nos círculos como um modelo fractal, de forma que um item hierarquicamente superior é composto e semelhante às partes hierarquicamente inferiores. A prática da dupla ligação consiste em sempre interligar os círculos em uma relação dupla: há sempre pelo menos duas pessoas que pertencem e decidem nos círculos inferiores e superiores. Uma das pessoas é a responsável geral pelos resultados do círculo e a outra é um representante eleito do círculo inferior para atuar nessa função.
    Holacracia — ligação dupla

    Holacracia — ligação dupla

    Um desses membros é a ligação principal, normalmente a formada pelo organograma tradicional, o outro, a representativa, eleito pelo círculo inferior. Veja a figura “Holacracia — ligação dupla”.

    Trata-se de uma prática relacionada à estrutura da Holacracia.

  • Encontros do círculo — São reuniões realizadas periódicamente em cada círculo para decidir sobre políticas, delegações de responsabilidade etc. O encontro dos círculos é composto por todas as pessoas naturais daquele círculo e os representantes dos círculos inferiores. Esses encontros se parecem com o sistema legislativo, pois as decisões tomadas são sempre em relação às políticas e procedimentos. Uma analogia é com um software orientado a objetos; nessa reunião só as classes poderiam ser alteradas com base em dados gerados pelo sistema em execução. Os objetos em si não seriam tocados.
  • Decisões por emergência integrativa — Apesar do nome dessa prática parecer super trabalhado, ele diz muito sobre a prática: cada participante traz suas perspectivas, que são tratadas nos encontros dos círculos, para serem integradas em um valor central. O encontro continua até que todas as perspectivas tenham sido tratadas.
    Deve-se ressaltar que por natureza as decisões na Holacracia são tomadas por consentimento, não por consenso. Devemos explicar melhor sobre o assunto no próximo post sobre Holacracia.
  • Direcionamento dinâmico — A holacracia transcende, ou seja, não necessariamente abandona a direção tradicional de prever-planejar-controlar, mas leva em conta outras formas de direcionamento. As políticas são criadas e as decisões tomadas com base no melhor entendimento do momento. Conforme surgem novas informações, as políticas são revistas e refinadas (ciclo de feedback).
  • Eleições integrativas — As posições são ocupadas por meio de um processo de eleição integrativa após discussão aberta. Deve-se iniciar a partir dos círculos inferiores, para que os eleitos possam fazer parte da eleição do círculo superior.
    As eleições utilizam o referido sistema de consentimento.

Criando a estrutura

A transformação organizacional também deve seguir uma abordagem ágil, ou seja, não ser aplicada de uma só vez. É interessante que as práticas sejam aplicadas como experimentos e que o resultado ajude no aprendizado de como conduzir a transformação.

Como as empresas normalmente estão organizadas de forma hierarquica, então o primeiro passo seria desenhar círculos no organograma existente. Ou seja, desenhe um círculo em torno de cada gerente e de seus subordinados, o que formará vários círculos que se sobrepõe, dando cara a uma primeira versão da hierarquia holacrática em sua empresa. Isso não quer dizer que essa seja a organização ideal.

O próximo passo é a execução de eleições para preencher os papéis de ligações representativas. É importante que se comece as eleições a partir dos círculos inferiores para que os representantes eleitos possam participar das eleições dos círculos superiores. Como é de se supor, é recomendável testar a abordagem em um subconjunto da empresa antes de aplicar na organização como um todo.

Veremos as práticas com mais profundidade em outro post.
– Post II — Decisões por emergência integrativa

Referências:
Podcast:
http://agiletoolkit.libsyn.com/agile06_brian_robertson_holocracy_a_governance_sturcture

Vídeo:

Holacracia na InfoQ americana:
http://www.infoq.com/news/holacracy-agile-enterprise

Site Oficial:
https://holacracy.org/

Artigo sobre Holacracia:
http://www.cutter.com/promotions/apmr0607/apmr0607.pdf

Entrevista com Brian Robertson:
http://integralesforum.org/fileadmin/user_upload/FACHGRUPPEN/FG_imove/downloads/Interview_with_Brian_Robertson_2006-02-08_v2_01.pdf

5 comments

  1. Pingback: Holacracia — Decisões por consentimento e a prática das decisões por emergência integrativa » Kudoos

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  3. Souza Neto

    Caro Leonardo,
    Parabéns pela iniciativa!
    A proposta é interessante, mas irreal para a realidade que vivemos, hoje, nas organizações. Trabalho há muitos anos com Governança e não tenho certeza se essa autonomia, essa liberdade, vai resolver o problema central da agência, que não é uma questão de convencimento, mas de controle. Como convencer o agente a abandonar sua agenda pessoal e devotar suas ações inteiramente aos interesses do proprietário?
    Lembre-se do Axioma de Jensen-Meckling, baseado na inexistência do agente perfeito (“The Nature of Man”). Dificilmente, objetivos alheios movem as pessoas a serem tão eficazes quanto o são para a consecução de seus próprios interesses.
    Abraços
    Souza Neto

    Posted on janeiro 7, 2014
    • Leonardo Campos

      Olá, Souza Neto, agradeço sua participação aqui no Kudoos 😉

      Fiquei pensando sobre a ideia de que a proposta seria irreal na realidade em que vivemos. Realmente não vivenciei uma empresa organizada com um sistema Holacrático, mas uma grande empresa, a Zappos, adotou essa forma de se organizar e em breve (coisa de alguns anos, acho) poderemos avaliar essa posição com algum exemplo do mundo real, não apenas de empresas pequenas.

      Quanto à questão do controle vs empoderamento, não acredito que em um mundo de baixa previsibilidade e mudanças constantes, controle seja a melhor forma de direção, vale ver um pouco sobre Teoria da Complexidade. Há um vídeo interessante de Donald Reinertsen sobre centralização descentralização que é excelente (apesar de um tanto longo):

      De qualquer forma, o ponto específico sobre a Holacracia é que sua forma de tomada de decisões não depende, nem espera, qualquer forma de convencimento, um dos pontos que a difere de uma democracia organizacional. Outra coisa é que na Holacracia, pelo menos supostamente, o propósito a ser atendido não é do dono do negócio e sim da própria organização. Uma vez adotada a Holacracia, a própria organização pode inclusive alterar seu propósito, independente da vondade do proprietário, só restando ao proprietário a alternativa de remover a Holacracia como um todo se isso não lhe satisfizer.
      Não duvido do axioma proposto, mas isso não vai mudar em uma estrutura de controle, correto? Se você precisa de mecanismos de controle, significa que seu propósito pessoal é diferente do agente controlador, portanto pouca motivação e eficácia. Existem ambientes onde a agenda pessoal é menos importante que a agenda do grupo, veja o livro Tribal Leadership e o livro Good Boss, Dead Boss.

      Abraços e mais uma vez obrigado pela participação.

      Posted on fevereiro 9, 2014

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