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Holacracia — Decisões por consentimento e a prática das decisões por emergência integrativa

Por

Holocracia
Dando continuidade a nossa série sobre Holacracia, vamos falar hoje da técnica de tomada de decisões utilizada nessa metodologia — a decisão por consentimento.

O que são decisões por consentimento

A tomada de decisão por consentimento é uma técnica que considera as objeções dos participates sobre uma determinada decisão a ser tomada. Tais objeções precisam ser  fundamentadas e substanciais, ou seja, precisam ter respaldo concreto e que não sejam baseadas em suposições ou perspectivas individuais.

A dinâmica da reunião acontece observando e considerando as objeções até que ninguém mais saiba de nenhuma razão que leve a proposta a estar fora de uma margem de tolerância aceitável pelo grupo.

Logo mais, no tópico decisões por emergência integrativa, vamos explicar melhor como tudo isso funciona para deixar mais claro.

Decisão por consentimento vs decisão por consenso

Diferentemente das decisões por consentimento, as decisões por consenso em geral exigem que os envolvidos [na tomada da decisão] estejam favoráveis a ela, inclusive emocionalmente.

No consenso, uma única pessoa é capaz de travar o processo, bloqueando-o completamente, ao passo que na tomada de decisões por consentimento, apenas se a pessoa tiver alguma razão importante para continuar a discussão — uma objeção fundamentada — o processo de decisão continuará para tentar integrá-la.

Ou seja, na decisão por consenso há a possibilidade de alguém, mal intencionado ou não, obstruir a tomada de decisão, podendo até causar uma “paralisia de análise”. Na decisão por consentimento, o máximo que essa pessoa pode fazer é levantar uma objeção, que será validada: “De que forma isso prejudica o sistema ou significa um retrocesso em nossas políticas?” Caso a justificativa seja pouco válida, não é considerada uma objeção e o processo continua, caso contrário deverá ser integrada.

Assim, vemos que na decisão por consenso há um foco muito grande no indivíduo e seus caprichos enquanto na decisão por consentimento o enfoque está no argumento racional e na busca para integrar as diversas perspectivas na decisão.

Decisões por emergência integrativa

Vamos utilizar, para ilustrar, um exemplo da prática de “Decisões por emergência integrativa”:
Antes de entrar na dinâmica, vale falar um pouco de um termo utilizado que é “tensão”. Uma tensão, no sentido da Holacracia, é a diferença entre uma situação potencial e a realidade, como, por exemplo, a situação em que uma equipe que não utiliza TDD (Test Driven Development) percebe que pode melhorar a qualidade de seu código e a velocidade que desenvolve com a adoção dessa prática. Logo há uma diferença entre a realidade atual e a potencial realidade futura, definindo a tensão.

Veja como a dinâmica acontece:

  • Apresentação — Esse é o momento em que os participantes apresentam as tensões. Quando alguém apresenta uma tensão, essa pessoa é chamada de “proponente”, pois junto com a tensão, deve-se trazer uma proposta de como tratá-la. É importante nesse momento que sejam permitidas apenas perguntas para melhorar o entendimento da proposta. O facilitador deve ser muito enfático em não permitir discussões ou reações nessa fase. Haverá espaço para isso logo mais.
  • Rodada de reação — Essa rodada acontece após cada proposta. É requisitado que cada participante dê uma opinião mais pessoal sobre seu sentimento em relação à proposta. Exemplos: “É isso aí”; “Putz, não sei não”; “Isso não vai dar certo”. Mais uma vez, o facilitador é fundamental para manter os integrantes apenas nas reações. Qualquer discussão ou outras respostas devem ser cortadas “sem dó” 🙂
  • Reformulação e clarificação — O proponente (aquele que trouxe a proposta para tratar a tensão) pode tentar explicar melhor sua proposta e fazer pequenas alterações em resposta às reações dadas. Nesse ponto ainda não é sugerido que grandes alterações sejam feitas, mesmo que já se perceba problemas na proposta original. O facilitador deve cortar as discussões.
  • Rodada de consentimento — O facilitador solicita que cada participante diga se tem uma objeção que deva ser integrada à proposta antes que a decisão seja tomada. Uma objeção é um motivo pelo qual a decisão ou política proposta seria prejudicial a algum aspecto do sistema. As objeções devem ser levantadas sem discussão ou questionamentos; o facilitador anota as objeções e corta quaisquer discussões que surjam nessa fase. A proposta é considera aceita caso não sejam levantadas objeções.
  • Integração — Se surgirem objeções, esas devem ser integradas à proposta. O facilitador inicia uma discussão no grupo sobre a objeção, com o objetivo de rapidamente encontrar uma maneira de resolver a objeção sem comprometer a solução da tensão original. Assim que possível, alguém faz uma proposta modificada e o ciclo retorna ao começo.

Consentimento como porta de entrada

A Holacracia, como dissemos no post anterior, é uma metodologia completa, ou seja, propõe as práticas e regras do jogo de forma abrangente. Lembra o Scrum em alguns aspectos, pois esse também já traz todo um conjunto de regras, representado pelo Scrum Guide. A Holacracia, entretanto, tem uma constituição que, dentre outras coisas, define o uso da decisão por consentimento.

Isso certamente não significa que tudo deva ser decidido por consentimento, apenas que esse formato de tomada de decisão deve ser utilizado como porta de entrada. Vamos explicar melhor:

Caso entendamos que para determinadas partes do nosso sistema é melhor termos decisões autocráticas, ou seja, deixarmos a cargo de uma determinada pessoa tomar as decisões até um certo limite (ex. secretária pode comprar material de escritório por conta própria até o valor de R$ 1000,00 por semana), ou que decisões por votação são ideias para outra parte do sistema etc, utilizamos a decisão por consentimento para criar essas políticas.

É como se a decisão por consentimento fosse a única existente na primeira decisão tomada em uma Holacracia, podendo essa decisão criar outros sistemas de decisão, quando necessário.

Esse vídeo (1:30) mostra uma simulação de uma decisão sendo tomada por consentimento:

Vamos continuar nossa série sobre Holacracia falando mais profundamente das práticas.
Se você já utilizou essa modalidade de tomada de decisões, conte-nos sua experiência.


 

Referências:

Nosso primeiro post sobre Holacracia:
http://blog.kudoos.com.br/2013/02/18/holacracia-governanca-e-direcao-agil/

Constituição da Holacracia:
https://holacracy.org/resources/holacracy-constitution
Simulação de uma reunião com decisão por consentimento:
http://www.youtube.com/watch?v=GoQU9FcE2NI
Outros vídeos
http://www.youtube.com/watch?v=ogOG7mqSvSQ
http://www.youtube.com/watch?v=8MV2IOD7kgA
Outros artigos:
http://integralleadershipreview.com/5333-feature-article-holacracy%E2%84%A2-in-action-theory-to-practice

About the author: Leonardo Campos

Leonardo Campos trabalha na área de TI desde 2000, atuou boa parte deste tempo como desenvolvedor Java, mas também desenvolveu profissionalmente com Ruby, .NET, VB, PHP e ASP. Desde do começo de 2009 vem atuando com Agile e hoje trabalha na ThoughtWorks Brasil. É estudioso de processos e entusiasta de Lean e Agile, sendo um dos organizadores do Lean Coffee São Paulo e editor da InfoQ. Leonardo é advogado por formação (Universidade Presbiteriana Mackenzie).
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@leonardocampos

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